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Telemetria reduz risco de acidente

Publicado em às 16:47.

Câmeras de vídeo instaladas na cabine dos caminhões ajudam a adequar rotas e controlar a jornada de trabalho dos motoristas

Por Inaldo Cristoni

As empresas contabilizam os ganhos obtidos com a aplicação de sistemas de telemetria veicular e roteirização inteligente na gestão de frotas. Um permite identificar os fatores que impactam os custos de transporte – como consumo de combustível, desgastes de pneus, desempenho do motor, pagamento de hora-extra, entre outros indicadores -; enquanto com o segundo é possível definir rotas mais adequadas para entrega otimizada da carga até o destino final. As duas ferramentas são consideradas de fundamental importância para melhorar a eficiência da operação logística, principalmente no cenário atual de crise econômica.

Uma das abordagens da telemetria veicular é a análise do comportamento do motorista ao volante, afirma Bruno Santos, gerente de vendas e marketing da Mix Telematics, fornecedora da plataforma Dynamics. Um computador de bordo instalado na cabine do veículo capta e transmite em tempo real, via rede de dados móveis, informações sobre as viagens com as quais uma empresa pode traçar um perfil de dirigibilidade e adotar medidas para evitar acidentes e infrações de trânsito, reduzir gastos com manutenção da frota e controlar a jornada de trabalho dos condutores.

A Mix Telematics tem carteira de 5 mil clientes da área de óleo e gás, agronegócio, construção civil, transporte e logística e mineração no Brasil. No final de 2015, lançou uma versão mais avançada da plataforma de telemetria veicular, que faz monitoração do comportamento do motorista por vídeo. Câmeras registram em tempo real os eventos ocorridos durante a viagem, como frenagem e aceleração brusca, excesso de velocidade, uso do celular, e não utilização do cinto de segurança. “As imagens captam até mesmo sinais de fadiga. ”

Sobre os benefícios da telemetria, há relatos de empresas que conseguiram reduzir em até 30% os custos de correntes do pagamento de hora-extra. Algumas obtiveram economia de 15% com consumo de combustível, enquanto outras aumentaram em 80% o controle da frota terceirizada com a telemetria. A White Martins, por exemplo, atingiu no ano passado a marca de 99,99% de entregas bem-sucedidas de gases criogênicos em forma líquida – C02, oxigênio, nitrogênio e argônio – a cerca de 5 mil clientes do setor industrial e hospitalar. Nas mais de 200 mil viagens que realiza por ano, a frota superior a 650 carretas distribuiu a quantidade exata de produtos demandada por cada um deles.

O sucesso da operação de entrega é resultado do controle de estoque feito na clientela. Um transmissor com chip denominado “remote Telemetry unit”, acoplado aos tanques de abastecimento instalados no site dos clientes, envia informações central nacional de logística da empresa, no Rio de Janeiro, sobre o nível de consumo e o timing adequado para reabastecimento. “Isso permite a distribuição mais eficiente, gera menos viagens, reduz a jornada de trabalho do motorista e a quantidade de quilômetros rodados”, afirma Paulo Petterle, gerente da logística da White Martins.

A avaliação dos riscos das viagens é outra preocupação, porque se trata de transporte de carga líquida, que se movimenta quando ocorre frenagem ou aceleração brusca. Mesmo conduzido devagar, existe o risco de o veículo tombar, observa Peterlle. Por isso, câmeras de vídeo foram instaladas em 230 carretas para monitorar as condições de dirigibilidade. A expectativa é equipar o restante da frota no período de dois a três anos.

Além disso, a companhia desenvolveu um algoritmo denominado “vulnerabilidade do sono”, para medir o nível de fadiga das 1,2 mil motoristas, cujos resultados servem de parâmetro para indicar a duração da viagem a ser realizada. Os dados coletados nas duas iniciativas serão utilizados na preparação de programa de treinamento de condutores.

O mote do projeto da Ambev foi a segurança da equipe responsável pelo transporte das bebidas. Começou há seis anos com a frota de motocicletas e incluiu os caminhões em 2015. Um prontuário eletrônico registra as infrações medidas pelo software de telemetria Tech Safety, implantado pela cervejaria, e outros indicadores de comportamento dos motoristas, como reclamações de trânsito, multas, pequenas colisões, irregularidade da carteira nacional de habilitação (CNH). A partir dessa base de dados, podem ser aplicadas medidas disciplinares e desenvolvidas ações de prevenção para evitar que os condutores se envolvam em acidentes.

Como resultado, houve queda acentuada no número de acidentes com afastamento, Rodrigo Mataraia, gerente corporativo de logística da Ambev, diz que foram registradas 88 ocorrências desse tipo em 2014, e a previsão é chegar ao fim deste ano com um total de 27. “Nosso foco é acidente zero”, diz. Ele acrescenta que a meta foi alcançada pela regional nordeste, que comemorou em agosto um período de 12 meses sem acidentes.

Além de reduzir os gastos com reparo ou substituição de veículos, a queda no número de acidentes evitou perdas estimadas em R$ 30 milhões na operação logística e de R$ 15 milhões a R$ 18 milhões, em média, com o não afastamento de funcionários entre 2014 e 2015. A cervejaria opera com 5,6 mil veículos e 9 mil motoristas na baixa temporada – no verão, o efetivo cresce para 10 mil condutores, na frota, há 700 carretas responsáveis pela transferência de produtos das fábricas para os centros de distribuição, que fazem perto de 250 mil viagens/ano.

Com o sistema de roteirização inteligente, as empresas buscam ganhos de produtividade na entrega da carga no destino final. Para a Copagaz, a aplicação dessa ferramenta foi de extrema valia porque otimizou a distribuição de gás a granel para o setor industrial, que representa 30% da operação: nos últimos dois anos, ouve aumento de 6% no volume de carga transportada, sem a necessidade de aquisição de mais caminhões para suprir a demanda. Neste ano, foram investidos R$ 6,6 milhões na aquisição de mais dez veículos como parte da política de renovação da frota, de 140 caminhões.

Entretanto, o maior impacto com a implantação do sistema de roteirização inteligente foi o controle da jornada de trabalho. A Copagaz obteve economia de R$ 2,5 milhões com pagamento de hora-extra a motoristas. Por isso, o plano é estender o uso da ferramenta na distribuição de gás envasado (GLP), que atende ao segmento residencial e responde por 70% da operação no mercado nacional. Segundo Everaldo Vaz, gerente   de logística da companhia, a distribuição de GLP é suportada por uma frota terceirizada, que soma 600 caminhões de 150 a 200 transportadoras.

Operadora logística que atua área da saúde, a RV imola fez uma reestruturação da malha de distribuição a partir de estudos de roteirização, o que permitiu aumentar a produtividade de entrega de medicamentos a embarcadores e destinatários. Dessa forma, foi possível programar janelas de entregas que tornaram a operação mais eficiente e menos dispendiosa nas capitais e cidades do interior. A empresa reduziu de 139 para 107 o tamanho da frota própria, mas opera de fato com 90 veículos. Já a frota terceirizada baixou de 65 para 50 veículos cadastrados. Mesmo assim, manteve o volume de 35 mil despachos de medicamentos por mês para uma carteira de 2 mil clientes.

De acordo com Joel Oliveira Souza, diretor de transportes RV Imola, mesmo com a redução da frota, o plano é aumentar gradativamente a participação de veículos próprios nas entregas, dos atuais 56% para 70% em 2017. “Algumas empresas de transportes estão aumentando o número de carros agregados e diminuindo a frota própria. Nós estamos fazendo o oposto, porque trabalhamos com produtos de saúde que têm regulamentação quanto ao transporte”, afirma. A companhia trabalha com medicamentos que precisam ficar em ambiente com temperatura entre 2°C e 8°C e em câmara congelada (abaixo de 20°C).

A Valercard desenvolveu o aplicativo Frota Mobile Gestor, para gestão de frota a partir do uso de cartão como meio eletrônico de pagamento. Com o plástico, os motoristas podem abastecer o veículo na rede credenciada de postos de gasolina. No momento da transação, são coletadas informações que permitem a tomada de decisões por meio do celular. “O gestor de frota consegue indicar a rota ideal para entrega da carga e localizar postos com melhores preços para abastecimento” afirma Caio Pajaro, diretor de produtos da empresa.

Por celulares Android, IOS e Windows Phone, é possível consultar o saldo do contrato de abastecimento por frota e por veículo, alteras limites de pagamentos feitos por cartão, liberar restrições de transações e até mesmo obter dicas de gerenciamento de frota. A Valecard registrou 2,8 mil downloads do aplicativo feitos pelos clientes, o que corresponde a 90% dos 450 mil veículos gerenciados pela plataforma. Segundo Pajaro, trata-se do primeiro de três aplicativos desenvolvidos para o gerenciamento mobile frota: os outros dois são destinados à gestão de condutores de veículos e de estabelecimentos comerciais, que serão lançados até o fim deste ano.

Fonte: Valor Econômico